domingo, 5 de outubro de 2008

Hoje não vou sair de casa

Hoje não vou sair de casa



Não preciso me justificar, sabe como é quando o doutor Ética e a puta da Moral batem a sua porta. Sempre vem falar da sua ex-mulher a Democracia, aquela mesma que sempre te ferrou com todo aquele amor enlatado. Ela sempre te trata feito um cão, mas você tem que amá-la. Mesmo ela sendo uma puta você tem que amá-la.
Quem já não ouviu falar que matar alguém é errado, mas os mesmos que te dizem que é errado te dão um uniforme e um fuzil e dizem que matar muitas pessoas é certo, é uma questão de soberania. Eles te pegam quando você ainda não tem idade para pensar e te enchem de idéias e ideais, alguém ainda pode ganhar dinheiro com a sua carne.
Um sujeito qualquer que eu nunca vi na minha frente antes, exclama: você tem que votar! Respondo-lhe então com um aceno obsceno e algumas palavras: Se tenho que votar, também tem que foder o cú da sua mulher? Ele me acha grosseiro, mas eu tenho que achar ele um bom alguma coisa. Fico pensando, ele deve ser professor de alguma coisa, só um professor moderno pra encher a cabeça com merda. Não existem mais professores apenas profissionais que não conseguem trabalhar em suas áreas viram professores especialistas. Alguém já falou que não há opinião pública; há opinião publicada. É fácil vir com palavras bonitas e depois sair para pagar a conta da luz e ir comprar flores para alguma mulher. Quero ver o mesmo sujeito cruzar os braços numa via publica e dizer: que se dane a sociedade! Eu existo!
Falei pra outro sujeito que hoje é o dia nacional do fingimento. Enganei-me é o dia da “democracia”, então fique em casa e abra uma cerveja, que ele vai passar. Amanhã voltamos à realidade. Ele concordou, mas falou que não podia faltar a votação. Não podia se justificar depois. Pra mim ele nem podia se justificar agora. Tava muito na cara do que ele é feito. Se eu escrevo isto em 2008 é para dizer aos futuros eleitores que a merda sempre foi à mesma e nós já conhecíamos o fedor mesmo antes deles nascerem e provavelmente ainda estará fedendo no dia em que eles terão a obrigação de tirar seus rabos da frente da televisão para ir votar.
Mas o doutor Ética chegou cheio de dedos, falando manso e com um sorriso conhecido, entrou e se sentou na sala de pernas cruzadas enquanto fui até a cozinha e urinei em um copo, coloquei duas pedras de gelo e voltei. Ele bebeu cada gota daquele genuíno uísque importado, conversamos um pouco. Percebi logo que ele era mais um especialista social, do tipo que vai às festas e tem boa aparência, curso superior, uma pessoa viajada, tentando me mostrar o caminho para o paraíso. Meu amigo pra eles só existe um paraíso e é o paraíso deles, você é apenas mais um e tem que confiar que a maioria sabe o que esta falando, mesmo que os números digam o contrario. Perguntei se queria mais uma dose, quando esvaziou seu copo. Ele ajeitou o terno, endireitou a gravata e respondeu de maneira solene e polida: Ainda é muito sedo meu rapaz, não é de bom tão beber neste horário. Temos protocolos sociais, você entende. Balancei a cabeça concordando e acendi um cigarro.
Enquanto ele discursava escutei umas batidas na porta e fui atender, era a puta da Moral, podre de bêbada e com um olhar completamente insano. Vou matar você! Seu filho-da-puta! Ela gritava com toda voz bem alta, ela não parecia igual àquelas mulheres que vão a chás de caridades e salões de cabeleireiro, ela parecia ser feita de carne e osso, do tipo que ainda sabe peidar em publico. O Dr. deu um pulo do sofá, nada protocolar, com os olhos arregalados e a gravata torta. Sua vadia já chegou berrando e pulando pra cima do doutor lhe enchendo de tapas e mordidas. Foi bonito ver o Dr. Ética e a Moral quebrando o pau na minha sala, a briga durou um bom tempo.
Voltei para a cozinha e peguei um cigarro, sentei ao lado da mesa, dava pra escutar os gritos e o barulho dos objetos sendo quebrados na outra sala. Fiquei imaginando se a minha querida Democracia entra-se naquela sala alguém poderia se ferir gravemente. É provável que a Moral a matasse, enquanto o Dr. ia achar algo que justificasse a ação da sua mulher. Fiquei tentado em ligar pra ela e a convidar para discutirmos nossa relação.

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