domingo, 5 de outubro de 2008

Da lealdade coletiva aos princípios do individuo

Da lealdade coletiva aos princípios do individuo


Passei toda à tarde em casa, sentado na frente da máquina de escrever olhando aquela folha em branco. Tudo bem, eu pensei. Daqui a pouco vai sair algo realmente bom. A única coisa que conseguia era acender um cigarro na brasa do outro e escutar a conversa das pessoas que passavam bem embaixo da minha janela.
A quantidade de livros que você acumula em uma vida, deveria significar alguma coisa. Pensei enquanto coçava a cabeça, três dias sem tomar banho o cabelo fica bem oleoso. Certa sabedoria, algo para contar. Mas a folha estava em branco. Os cigarros acabando e nada de álcool em casa, nem um traguinho. Levantava de minha cadeira ia a cozinha fazer um café, voltava e sentava. Levantava da minha cadeira ia ao banheiro mijar, voltava e me sentava.
Você pode escrever qualquer coisa a qualquer hora e isto é horrível, não se pode escrever com tanta liberdade. Já estava começando a acreditar que estava acabado, então fui até a caixa do correio, abri-a e lá estava uma carta. A carta era uma critica dura contra um dos meus contos, a mulher soltava o verbo falando que eu não a convencia, nem no amor e nem no sexo. Pensei que ela tinha entendido que o meu conto em nenhum momento abordava amor e sexo. Mas ela só queria enxergar amor e sexo. Odeio ser rotulado pelas experiências alheias nunca fui bom de sexo e o amor foi uma palavra do dicionário que sempre pulei. Não ligo para o sentimento alheio mais do que ligo para uma espinha. E já faz tanto tempo que não me sai nenhuma espinha.
Voltei para minha máquina de escrever e troquei o papel coloquei uma folha azul, quando você olha para o céu sem nenhuma nuvem branca e ele esta completamente azul, você sempre acaba imaginando alguma coisa. Pensei que a folha azul iria de alguma forma me ajudar. Tive que ir ao banheiro dar mais uma mijada.
É engraçado todo mundo é obrigado a amar alguma coisa, se você não ama, não é normal. Mas o que tem de importante neste sentimento.
É bom saber que alguém tem sangue pelo menos, ela demonstrou que tinha. Adoro criticas principalmente aquelas de quem não entende o que esta criticando, consegui despertar qualquer outra coisa nela, sem ter a mínima intenção de fazer, ela estava defendendo a personagem deste canalha escritor, amei aquela mulher pelo seu desprezo a minha pobre mortalidade. Não pretendo cair em lugares comuns. A folha azul não ajudou muito troquei para uma outra branca. Lembrei-me que tinham escritores que sofriam de fobias de máquinas de escrever e escreviam a mão, podia estar ficando com algum tipo de fobia. Sou muito preguiçoso para procurar uma caneta e escrever a mão e depois ter que passar a limpo.
Tentei ler o jornal do dia, pagina por pagina, nada. Eu poderia ser jornalista e também escrever nada, parecia realmente fácil. Falar das mesmas coisas, no mesmo tom. Com as mesmas cores.
Fiquei olhando a rua da janela e a luz do dia me incomodando, hipnotizado, fiquei imaginando como um pássaro ficava olhando para um gato, estava olhando a possibilidade da morte. E a morte pode ser uma possibilidade atraente. Principalmente quando se está sóbrio. Eu estava sóbrio e meus dentes incomodando, a sensação de uma camada de gordura sobre eles. Nem uma palavra escrita ainda, nada. Precisava de mais criticas, uma briga de verdade, algo no que pensar. Fiquei imaginando se eu morrer naquele apartamento ninguém iria me incomodar até vencer uns três alugueis e tentarem me despejar. Ai já seria tarde e meu corpo podre nunca mais ia sair dali, não poderiam me lavar, minha gordura ia entrar em cada fresta daquele piso de cimento. Aquele apartamento ia ter um fantasma digno, puxando correntes e tudo mais. Distrai-me olhando a rua e a noite veio como um alívio. Agora podia sair e comprar um trago.
O bar da esquina estava fechado, caminhei duas quadras até a padaria e comprei uma garrafa de conhaque, uma de vinho, quatro carteiras de cigarro. Estava salvo para agüentar mais uma noite. Na rua não tinha ninguém alem de mim e um cachorro, nem os carros estavam rodando por ali. Voltei com a mesma pressa com que tinha saído, para o apartamento e servi um copo de massa de tomate cheio de conhaque, o primeiro gole foi maravilhoso. Pude ver o brilho das luzes dos postes na rua, no segundo copo já me sentia o sujeito mais confiante do mundo. Tudo fazia sentido, voltei para a máquina, arranquei a velha folha de papel com raiva e a joguei no cesto de lixo junto com mais uma centena de folhas em branco. Coloquei uma folha novinha em folha. Adorei a sensação de poder, era um escritor de verdade. Não precisa escrever nada, nem uma palavra ou linha, eu tinha certeza que era um escritor. Terminei o conhaque e comecei no vinho. Pensei escrever algo filosófico, revolucionário, poético, político, roliço. Um tratado em alguma língua morta algo realmente exótico e novo. Abri a gaveta da mesa procurando alguma língua morta, mas encontrei apenas a conta da luz que estava perdida. Levantei e fui ao banheiro da uma mijada. Voltei do banheiro e comecei a escrever um poema sobre o preço do guisado de segunda e como deveria ser preparado um belo prato de carne. Quando terminei percebi que ainda não tinha comido nada o dia todo e fui para a cozinha requentar alguma coisa que estava na geladeira.

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