domingo, 19 de outubro de 2008

Introdução aos contos (II parte)

Introdução aos contos (II parte)

Em 2006 tive a idéia de publicar em um saite para escritores, meus primeiros contos classificados como cartas depois pelo próprio conteúdo que fui desenvolvendo tomaram outro rumo e os classifiquei-os como contos eróticos, mas na verdade não são nem cartas e nem contos eróticos.

O que publiquei foram resumos de historias, de uma maneira experimental quis provocar os leitores a opinarem sobre elas.

Para minha surpresa este material em forma bruta (ainda no mundo da construção) teve boa aceitação e participação de vários colegas, com seus comentários sempre favoráveis e construtivos. Copio de Pessoa estas palavras “tudo vale a pena, se a alma não é pequena”.

Desconheço outro escritor que tenha mostrado seus apontamentos ainda em formação para o público (com mais de 2.800 acessos para 27 textos). A internet nos da o espaço para estas invenções e testes, podemos trabalhar a mil mãos.

Balizando e tateando no escuro, encontrando pequenos fragmentos de temperatura desta luz, para nós guiar em viagem intima que é escrever onde apenas a solidão da o verdadeiro tom.

Isto é um tanto irreal, mas verdadeiro. Conhecemos o mundo a partir de nossas marcas, na solidão nos voltamos para o que a de mais humano e universal.

Agora no momento estou fechando as historias para a publicação (lapidando esta pedra bruta de 40 páginas que esta sendo lapidada em 100 páginas), em breve estará à disposição o livro.

Antes de tudo gostaria de dizer, que foi uma oficina particular onde criei o personagem JEUX. Apesar de particular sempre esteve aberta à porta.

Jeux é um anti-herói (entenda não é um vilão, mas uma outra classificação de herói), seguindo a tradição dos romances noir, com todos seus defeitos e qualidades humanas, é um personagem que poderia existir e existe no contexto do que evitamos falar.

Este primeiro livro não tem pretensões de obra-prima, mas é a matéria-prima. Aqui nasceu o personagem e esta historia que são esboços para o livro que estou em processo de finalização.

Os textos podem ser encontrados no saite http://www.recantodasletras.com.br/, procure em AUTORES por JEUX.

Para a primeira edição estou selecionando alguns comentários, mande o seu!
Aqui mesmo nesta página estarão as historias na versão esboço, e um endereço de
e-mail disponibilizado para comentários.
jeux370@gmail.com


Agora em 2008, revisando o material pode perceber que ultrapassou o limite de apenas um livro. A criação deste personagem esta me rendendo material para dois livros, onde estou conseguindo criar o seu Eu interior. São no total 40 historias dividida em dois blocos de 20 historias cada um, algumas historias serão retiradas para uma melhor cronologia dos fatos e é provável que apareçam em outros livros, outras por si só já se tornaram livros independentes. Nesta fase de 2008 o personagem se encontra já independente do autor para criar suas próprias historias. Minha intenção é criar um personagem ficcional que é um escritor e o fazer criar os seus próprios livros, uma historia dentro da historia. Paralelo a este projeto, continuou desenvolvendo meus outros personagens e historias experimentando vários estilos. Jeux é e sempre foi uma obra de ficção, o fato de algumas pessoas acharem que se trata de relatos de experiências da vida real é um engano. Nenhum personagem retrata exclusivamente um acontecimento ou pessoa que conheço. Minha intenção é meramente literária.
Hoje alem deste personagem, venho trabalhando em mais alguns. Continuo escrevendo minhas poesias, roteiros, romances.... (com mais de 4.000 acessos para 67 textos).


O Autor

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Paris é Uma Festa

Paris é Uma Festa, Ernest Hemingway terminou de escrever este livro em 1960, em cuba. Como o próprio autor escreveu em seu prefácio “Se o leitor preferir, considere este volume como um trabalho de ficção. Seja como for, ficção ou não, há sempre a possibilidade de que lance alguma luz sobre aquilo que foi escrito como matéria de fato.” Este livro nós trás a Paris dos anos 20, para ser mais exato o período em que o escritor viveu de 1921 a 1926 e toda a efervescência daquela cidade luz, numa época conturbada e mágica. Ele nos descreve suas impressões, viagens, amizades, seus passa tempos, suas dificuldades para se manter e poder se dedicar a sua escrita. 40 anos depois já na fase da maturidade o autor recapitula sua iniciação e a maneira experimental como foi definindo seu estilo, as duvidas de um jovem escritor e a coragem de prosseguir atrás de seus sonhos. O momento crucial em que abandona o jornalismo para se dedicar ao oficio de escritor. Muito bem escrito e de maneira atraente, é impossível terminar um conto e não prosseguir no próximo. “O conto escrevia-se por si próprio, e eu tinha dificuldade em conduzi-lo.” Você pode sentir esta energia na sua escrita o fluxo continuo e o corte cirúrgico em suas frases. “Naquele tempo não havia dinheiro para comprar livros.” Mesmo passando por dificuldades, ele não desiste do seu sonho, é um exemplo de determinação e paixão pela literatura. Hemingway nos da varias dicas de como observar as mínimas coisas que estão ocorrendo a nossa volta e de como usar este material, para criarmos. “Quem se dedica a seu trabalho e nele encontra satisfação não é afetado pela pobreza.” A forma como ele trata a narrativa aproveitando sua experiência como jornalista da uma nova realidade para aqueles tempos, despe o texto de qualquer pompa e arestas desnecessárias, servindo como base para muitos outros escritores das novas gerações. Em 1926 ele publicou “O Sol Também Se Levanta”, este livro obteve um sucesso surpreendente na época; são do autor também:
Adeus às Armas (1929), Morte à Tarde (1932), As Verdes Colinas da África (1935), Por Quem os Sinos Dobram (1940); e o mais conhecido de todos e comentado O Velho e o Mar (1952), livro que lhe rendeu o Prêmio Pulitzer. Hemingway nasceu em 21/07/1899, Illinois e faleceu em 02/07/1961, Idaho, Estados Unidos.

domingo, 5 de outubro de 2008

Da lealdade coletiva aos princípios do individuo

Da lealdade coletiva aos princípios do individuo


Passei toda à tarde em casa, sentado na frente da máquina de escrever olhando aquela folha em branco. Tudo bem, eu pensei. Daqui a pouco vai sair algo realmente bom. A única coisa que conseguia era acender um cigarro na brasa do outro e escutar a conversa das pessoas que passavam bem embaixo da minha janela.
A quantidade de livros que você acumula em uma vida, deveria significar alguma coisa. Pensei enquanto coçava a cabeça, três dias sem tomar banho o cabelo fica bem oleoso. Certa sabedoria, algo para contar. Mas a folha estava em branco. Os cigarros acabando e nada de álcool em casa, nem um traguinho. Levantava de minha cadeira ia a cozinha fazer um café, voltava e sentava. Levantava da minha cadeira ia ao banheiro mijar, voltava e me sentava.
Você pode escrever qualquer coisa a qualquer hora e isto é horrível, não se pode escrever com tanta liberdade. Já estava começando a acreditar que estava acabado, então fui até a caixa do correio, abri-a e lá estava uma carta. A carta era uma critica dura contra um dos meus contos, a mulher soltava o verbo falando que eu não a convencia, nem no amor e nem no sexo. Pensei que ela tinha entendido que o meu conto em nenhum momento abordava amor e sexo. Mas ela só queria enxergar amor e sexo. Odeio ser rotulado pelas experiências alheias nunca fui bom de sexo e o amor foi uma palavra do dicionário que sempre pulei. Não ligo para o sentimento alheio mais do que ligo para uma espinha. E já faz tanto tempo que não me sai nenhuma espinha.
Voltei para minha máquina de escrever e troquei o papel coloquei uma folha azul, quando você olha para o céu sem nenhuma nuvem branca e ele esta completamente azul, você sempre acaba imaginando alguma coisa. Pensei que a folha azul iria de alguma forma me ajudar. Tive que ir ao banheiro dar mais uma mijada.
É engraçado todo mundo é obrigado a amar alguma coisa, se você não ama, não é normal. Mas o que tem de importante neste sentimento.
É bom saber que alguém tem sangue pelo menos, ela demonstrou que tinha. Adoro criticas principalmente aquelas de quem não entende o que esta criticando, consegui despertar qualquer outra coisa nela, sem ter a mínima intenção de fazer, ela estava defendendo a personagem deste canalha escritor, amei aquela mulher pelo seu desprezo a minha pobre mortalidade. Não pretendo cair em lugares comuns. A folha azul não ajudou muito troquei para uma outra branca. Lembrei-me que tinham escritores que sofriam de fobias de máquinas de escrever e escreviam a mão, podia estar ficando com algum tipo de fobia. Sou muito preguiçoso para procurar uma caneta e escrever a mão e depois ter que passar a limpo.
Tentei ler o jornal do dia, pagina por pagina, nada. Eu poderia ser jornalista e também escrever nada, parecia realmente fácil. Falar das mesmas coisas, no mesmo tom. Com as mesmas cores.
Fiquei olhando a rua da janela e a luz do dia me incomodando, hipnotizado, fiquei imaginando como um pássaro ficava olhando para um gato, estava olhando a possibilidade da morte. E a morte pode ser uma possibilidade atraente. Principalmente quando se está sóbrio. Eu estava sóbrio e meus dentes incomodando, a sensação de uma camada de gordura sobre eles. Nem uma palavra escrita ainda, nada. Precisava de mais criticas, uma briga de verdade, algo no que pensar. Fiquei imaginando se eu morrer naquele apartamento ninguém iria me incomodar até vencer uns três alugueis e tentarem me despejar. Ai já seria tarde e meu corpo podre nunca mais ia sair dali, não poderiam me lavar, minha gordura ia entrar em cada fresta daquele piso de cimento. Aquele apartamento ia ter um fantasma digno, puxando correntes e tudo mais. Distrai-me olhando a rua e a noite veio como um alívio. Agora podia sair e comprar um trago.
O bar da esquina estava fechado, caminhei duas quadras até a padaria e comprei uma garrafa de conhaque, uma de vinho, quatro carteiras de cigarro. Estava salvo para agüentar mais uma noite. Na rua não tinha ninguém alem de mim e um cachorro, nem os carros estavam rodando por ali. Voltei com a mesma pressa com que tinha saído, para o apartamento e servi um copo de massa de tomate cheio de conhaque, o primeiro gole foi maravilhoso. Pude ver o brilho das luzes dos postes na rua, no segundo copo já me sentia o sujeito mais confiante do mundo. Tudo fazia sentido, voltei para a máquina, arranquei a velha folha de papel com raiva e a joguei no cesto de lixo junto com mais uma centena de folhas em branco. Coloquei uma folha novinha em folha. Adorei a sensação de poder, era um escritor de verdade. Não precisa escrever nada, nem uma palavra ou linha, eu tinha certeza que era um escritor. Terminei o conhaque e comecei no vinho. Pensei escrever algo filosófico, revolucionário, poético, político, roliço. Um tratado em alguma língua morta algo realmente exótico e novo. Abri a gaveta da mesa procurando alguma língua morta, mas encontrei apenas a conta da luz que estava perdida. Levantei e fui ao banheiro da uma mijada. Voltei do banheiro e comecei a escrever um poema sobre o preço do guisado de segunda e como deveria ser preparado um belo prato de carne. Quando terminei percebi que ainda não tinha comido nada o dia todo e fui para a cozinha requentar alguma coisa que estava na geladeira.

Hoje não vou sair de casa

Hoje não vou sair de casa



Não preciso me justificar, sabe como é quando o doutor Ética e a puta da Moral batem a sua porta. Sempre vem falar da sua ex-mulher a Democracia, aquela mesma que sempre te ferrou com todo aquele amor enlatado. Ela sempre te trata feito um cão, mas você tem que amá-la. Mesmo ela sendo uma puta você tem que amá-la.
Quem já não ouviu falar que matar alguém é errado, mas os mesmos que te dizem que é errado te dão um uniforme e um fuzil e dizem que matar muitas pessoas é certo, é uma questão de soberania. Eles te pegam quando você ainda não tem idade para pensar e te enchem de idéias e ideais, alguém ainda pode ganhar dinheiro com a sua carne.
Um sujeito qualquer que eu nunca vi na minha frente antes, exclama: você tem que votar! Respondo-lhe então com um aceno obsceno e algumas palavras: Se tenho que votar, também tem que foder o cú da sua mulher? Ele me acha grosseiro, mas eu tenho que achar ele um bom alguma coisa. Fico pensando, ele deve ser professor de alguma coisa, só um professor moderno pra encher a cabeça com merda. Não existem mais professores apenas profissionais que não conseguem trabalhar em suas áreas viram professores especialistas. Alguém já falou que não há opinião pública; há opinião publicada. É fácil vir com palavras bonitas e depois sair para pagar a conta da luz e ir comprar flores para alguma mulher. Quero ver o mesmo sujeito cruzar os braços numa via publica e dizer: que se dane a sociedade! Eu existo!
Falei pra outro sujeito que hoje é o dia nacional do fingimento. Enganei-me é o dia da “democracia”, então fique em casa e abra uma cerveja, que ele vai passar. Amanhã voltamos à realidade. Ele concordou, mas falou que não podia faltar a votação. Não podia se justificar depois. Pra mim ele nem podia se justificar agora. Tava muito na cara do que ele é feito. Se eu escrevo isto em 2008 é para dizer aos futuros eleitores que a merda sempre foi à mesma e nós já conhecíamos o fedor mesmo antes deles nascerem e provavelmente ainda estará fedendo no dia em que eles terão a obrigação de tirar seus rabos da frente da televisão para ir votar.
Mas o doutor Ética chegou cheio de dedos, falando manso e com um sorriso conhecido, entrou e se sentou na sala de pernas cruzadas enquanto fui até a cozinha e urinei em um copo, coloquei duas pedras de gelo e voltei. Ele bebeu cada gota daquele genuíno uísque importado, conversamos um pouco. Percebi logo que ele era mais um especialista social, do tipo que vai às festas e tem boa aparência, curso superior, uma pessoa viajada, tentando me mostrar o caminho para o paraíso. Meu amigo pra eles só existe um paraíso e é o paraíso deles, você é apenas mais um e tem que confiar que a maioria sabe o que esta falando, mesmo que os números digam o contrario. Perguntei se queria mais uma dose, quando esvaziou seu copo. Ele ajeitou o terno, endireitou a gravata e respondeu de maneira solene e polida: Ainda é muito sedo meu rapaz, não é de bom tão beber neste horário. Temos protocolos sociais, você entende. Balancei a cabeça concordando e acendi um cigarro.
Enquanto ele discursava escutei umas batidas na porta e fui atender, era a puta da Moral, podre de bêbada e com um olhar completamente insano. Vou matar você! Seu filho-da-puta! Ela gritava com toda voz bem alta, ela não parecia igual àquelas mulheres que vão a chás de caridades e salões de cabeleireiro, ela parecia ser feita de carne e osso, do tipo que ainda sabe peidar em publico. O Dr. deu um pulo do sofá, nada protocolar, com os olhos arregalados e a gravata torta. Sua vadia já chegou berrando e pulando pra cima do doutor lhe enchendo de tapas e mordidas. Foi bonito ver o Dr. Ética e a Moral quebrando o pau na minha sala, a briga durou um bom tempo.
Voltei para a cozinha e peguei um cigarro, sentei ao lado da mesa, dava pra escutar os gritos e o barulho dos objetos sendo quebrados na outra sala. Fiquei imaginando se a minha querida Democracia entra-se naquela sala alguém poderia se ferir gravemente. É provável que a Moral a matasse, enquanto o Dr. ia achar algo que justificasse a ação da sua mulher. Fiquei tentado em ligar pra ela e a convidar para discutirmos nossa relação.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Ao Sul de Lugar Nenhum (South of no north)

Ao Sul de Lugar Nenhum (South of no north), Charles Bukowski, publicado pela primeira vez em 1973. Este é mais um livro que reúne os contos do velho safado. Bukowski fala da vida cotidiana e de tudo que é mais simples e verdadeiro de uma maneira tão crua e caustica que fere os ouvidos mais puritanos, é uma leitura às escondidas. Ele sacode o leitor e às vezes chega a espancar, mas não existe nenhuma imoralidade no que ele diz e sim no que as pessoas fingem não saber. Este livro mostra o velho buk em ótima forma com historias curtas e diretas. Sua imagem de beberrão incurável esconde uma grande alma que não consegue fazer parte da falsidade cotidiana. Mais uma vez seu auter ego Henry Chinaski da a cara para bater, seja como narrador ou personagem em muitos dos contos aqui reunidos. Os personagens que caminham em suas historias sobre a áurea de vagabundos, derrotados, marginais, no fundo são os verdadeiros heróis da humanidade. São aqueles que dizem não dentro de um contexto que é tão simples dizer sim. É tão simples ser mais um pedaço de plástico dentro de uma fabrica de manequins do que realmente tentar ser gente. Dizer não, desistir, virar as costas para este modelo politicamente correto. Hoje sabemos o quanto é correto os interresses e o quanto as engrenagens moem. Mas não pense que só por estes personagens estarem à margem do que você engole todos os dias como algo normal e precioso, eles não tenham seus sonhos e seus milagres também. Bukowski nos mostra que existe vida além da ultima moda, que se pode ser feliz sem ter o carro do ano. E que você pode limpar sua bunda com a bandeira nacional de qualquer nação sem ter medo de pegar hemorróidas. E você começa a descobrir que é apenas um pedaço de pano a tal bandeira e que tomar uma cerveja num boteco mal iluminado e sujo pode ser melhor do que ir a missa. Bukowski é assim diferente, real. Para nós que estamos acostumados a conviver com fantoches e olhar fantoches no espelho do banheiro, suas historias são sempre alarmantes. Temos aqui vinte e sete historias para podermos viajar por uma parte deste labirinto de certezas. Não é a toa que sua escrita influencia tantos outros escritores que apareceram depois dele. Charles Bukowski (1920-1994) nasceu na Alemanha, ainda criança foi com seus Pais para viver nos Estados Unidos, o cenário que ele mais retratou Los Angeles e seus subterrâneos. Seu primeiro conto foi publicado quando tinha 24 anos.