quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Cristina e a fé

Cristina e a fé


Cristina teve uma visão de que o apocalipse estava próximo. Correu para a igreja e ficou orando. Pedindo algum sinal. Ela que já estava há tanto tempo em perfeita comunhão com sua fé. Esperava ser salva de todos os seus pecados. Cada vez mais envolvida com as coisas da alma.
Em primeiro lugar tinha a sua fé, tudo girava em seu dia de fé, muita fé. Com a religião que escolhera sua tabua de salvação.
Seu marido trabalhando demais e nos últimos anos estava se empenhando mais ainda para uma nova promoção. Eles queriam comprar uma casa, a promoção viria bem, naquela hora. Seria um milagre, e lá ia Cristina apavorada e feliz se ajoelhar no altar. Estavam casados há quinze anos e não tinham ainda adquirido nada. Nem bens matérias, filho, cachorro, nem uma planta. O tempo era curto para Luiz e Cristina, ele trabalhava enquanto ela orava.

Das oito as nove ela rezava em seu quarto, depois ficava até as onze horas da manhã escutando as orações do pastor no pequeno rádio da cozinha. Colocando um copo d’água ao lado do radinho. Como o pastor tinha indicado. Enquanto lia a bíblia, e tinha suas visões do paraíso. A salvação estava tão próxima que ela podia sentir estar sendo salva. Ao meio dia fazia suas orações e comia uma torrada, sem tempo para fazer o almoço, não podia perder tempo. Deus era muito importante, o único significado de sua vida, o resto estava em segundo plano, coisas imundas. Luiz chegava todo dia tarde sem vontade de falar, Cristina se resguardava no quarto para orar.

Luiz começou a ficar no bar perto do serviço, tomando uma cerveja com os amigos depois do expediente, Cristina viu aquilo como obra do Diabo. Não perdeu tempo e começou uma novena. Deus ia salvar seu casamento, Luiz tinha que entender que o fim do mundo estava próximo. Ela estava orando pelos dois.

Com o tempo cada um foi ficando em seu mundo, mesmo quando Luiz resolvia chegar cedo em casa para ficar com ela. Ela não podia ficar tinha que ajudar a organizar alguma coisa na igreja. Ele sabia que ela sempre foi uma mulher inteligente, mas ele não conseguia entender aquela escravidão em nome de uma fé. Deus tinha que ser um sujeito menos egoísta e devolver a mulher dele, ficava pensando. Enquanto bebia no bar vendo os outros casais nas mesas ao lado conversando. Ele já não se lembrava de como era conversar com a sua mulher, ou a ultima vez em que fizeram um sexo bem safado. Agora era tudo amor, também nunca tinha imaginado que o amor era algo tão sem graça.

Precisaram na igreja. De alguém para trabalhar aos finais de semana com crianças carentes e grupos de jovens, a proposta era tão nobre que Cristina nem comentou com o marido a nova tarefa que ela tinha aceitado.
Foi uma surpresa quando Luiz acordou num sábado de manhã e viu que o lado da cama de sua esposa estava vazio, esperou até a noite quando ela chegou para conversarem.
Cristina estava sem tempo, tomou um café bebido e voltou para o culto. Prometeu que quando ela voltasse, eles conversariam. Quando ela chegou Luiz já estava dormindo. Ficou emocionada seu amor dormia tão tranqüilo que parecia até um anjo, ficou horas olhando ele dormir e aproveitou para ler um pouquinho mais a bíblia.
Naquela época Deus deveria estar de caixa baixo, sempre ela tinha que levar alguma coisa ou dinheiro para a igreja e não bastava só o dizimo, ela tinha que ter fé. Deus era insaciável por dinheiro, ele tinha que construir grandes igrejas e templos cada vez mais luxuosos. Depois ele ia devolver tudo pra ela no céu.

Aluguel atrasado, luz, água e outras contas. Como o Diabo agia de forma sorrateira tentando tirar ela do caminho da fé, mas ela se mantinha imune ao tinhoso, até o dinheiro da comida ela já estava dizimando, deus tinha mais juros e impostos que o governo brasileiro, e olha que ele é único. No governo temos muitas bocas para alimentar. Depois de dois anos devota da nova fé, ela adormeceu sonhando com Deus e o céu, seu marido ia entender tudo um dia. Até em seus sonhos os dois estavam ligados pela vida eterna, andando por lindos jardins celestiais.

Luiz saiu cedo aquele dia em que ela continuava sonhando. O marido deixou apenas um bilhete no criado mudo, estava escrito “fique com Deus!”, Cristina acordou com a batida da porta da frente se fechando.

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